No Dia do Jornalista, 07 de abril, a reverência necessária é aos que enfrentam a mentira organizada, a covardia institucional e a degradação do debate público para garantir à sociedade o direito de conhecer os fatos

Neste 07 de abril, o que se homenageia não é apenas uma profissão. Homenageia-se uma das últimas trincheiras ainda de pé em defesa da sociedade, da democracia e do direito do cidadão à verdade. Em tempos em que a mentira se profissionalizou, a desinformação virou método e a manipulação se disfarça de opinião, o jornalismo segue sendo uma atividade indispensável para impedir que a vida pública seja totalmente sequestrada pelos interesses, pela farsa e pela ignorância.

O jornalista de verdade nunca foi uma figura confortável. Nunca existiu para agradar autoridades, proteger conveniências, poupar privilegiados ou fazer média com quem quer que seja. Sua função é outra, muito mais incômoda e infinitamente mais relevante. Cabe ao jornalista investigar o que tentam esconder, questionar o que tentam impor, confrontar versões fabricadas, separar boato de fato e devolver à população aquilo que lhe pertence por direito, a informação limpa, apurada e verdadeira.

E a verdade, quase sempre, incomoda.

Incomoda quem mente, quem manipula, quem distorce, quem negocia nas sombras, quem atua nos bastidores para preservar privilégios e depois posa de defensor da moralidade em público. Incomoda quem vive da confusão, da blindagem e da opacidade. O jornalista sério, por essência, é um problema para toda engrenagem que depende do silêncio, da desinformação e da cumplicidade coletiva para continuar funcionando.

Talvez por isso a profissão seja tão essencial quanto maltratada. E talvez por isso siga tão atual a frase dura, mas tristemente precisa, de que o jornalista é um ser detestavelmente aceito pela sociedade. Aceito quando serve. Detestado quando revela. Procurado quando a crise explode. Desprezado quando a estupidez parece mais conveniente do que a lucidez. O jornalista é necessário, mas raramente é querido. É útil quando confirma expectativas. Torna-se alvo quando cumpre o seu verdadeiro papel.

E não são apenas os poderosos, os influentes ou os donos de interesses contrariados que não suportam o jornalista. Há também uma parcela da própria sociedade que escolheu abandonar o valor da informação séria para se ajoelhar diante da superficialidade. Vivemos o tempo em que a mediocridade ganhou palco, algoritmo e plateia. Um tempo em que cabeças vazias, travestidas de influenciadores, se tornaram referência para multidões fascinadas pelo ruído, pela aparência, pela agressividade e pela ignorância transformada em espetáculo.

São personagens fabricados para viralizar, não para esclarecer. Gente sem preparo, sem ética, sem compromisso com a verdade e, muitas vezes, sem qualquer noção de responsabilidade pública. Ainda assim, são celebrados, seguidos, defendidos e enriquecidos por milhares de iludidos que preferem a encenação ao conteúdo, o grito ao argumento, o achismo à apuração. Enquanto isso, jornalistas que estudam, investigam, confirmam, cruzam dados, ouvem fontes, analisam documentos e respondem civil e criminalmente pelo que publicam são tratados como se fossem um estorvo numa era dominada por farsantes barulhentos.

Mas a realidade, mais cedo ou mais tarde, desmonta a fantasia.

Quando o escândalo explode, quando a fraude aparece, quando o absurdo se impõe, quando os ídolos de barro desabam depois de praticarem coisas inacreditáveis no ambiente virtual, é sempre ao jornalismo sério que a sociedade volta. É aos jornalistas idôneos, aos sites confiáveis, aos jornais de credibilidade histórica e aos profissionais que ainda preservam método, critério e compromisso público que as pessoas recorrem para entender o que realmente aconteceu.

No fim, a mentira pode até correr mais rápido. Mas é a verdade, sustentada pelo trabalho jornalístico sério, que permanece de pé.

Por isso, este 07 de abril não pode ser reduzido a homenagens protocolares, mensagens vazias ou reverências de conveniência. Esta data precisa servir como um chamado à consciência coletiva. Sem jornalismo ético, a sociedade adoece. Sem imprensa livre, a democracia enfraquece. Sem informação responsável, o cidadão perde a capacidade de distinguir fato de farsa, notícia de propaganda, interesse público de manipulação.

E isso se torna ainda mais grave em períodos eleitorais, quando a mentira ganha método, a desinformação se industrializa e a manipulação emocional vira estratégia de disputa. É exatamente nesses momentos que o jornalismo responsável se torna ainda mais vital para interpretar pesquisas de opinião com seriedade, fiscalizar discursos, confrontar promessas, expor contradições e impedir que a população seja arrastada pela ignorância organizada, pelo fanatismo ou pelo marketing travestido de verdade.

O jornalismo não é inimigo da sociedade. O jornalismo é uma das últimas defesas da sociedade contra seus piores inimigos.

Neste Dia do Jornalista, a homenagem que importa deve ser dirigida aos profissionais que não se vendem, não se calam, não se curvam e não trocam a verdade pela conveniência. Aos que continuam exercendo esse ofício com coragem, independência, lucidez e decência, mesmo sob ataques, ameaças, campanhas de difamação, desprezo e tentativas constantes de desmoralização.

Porque num tempo em que tantos escolheram a mentira por conforto, o jornalista continua tendo a obrigação de escolher a verdade, mesmo quando ela custa caro.

E talvez seja exatamente por isso que ainda incomoda tanto.