Sentença no caso da cantora gospel expõe a crueldade do crime e reacende o debate sobre feminicídio, impunidade e proteção às mulheres no Brasil
Os três réus julgados pela morte da cantora e pastora Sara Freitas foram condenados pelo Tribunal do Júri, em Dias D’Ávila, na Região Metropolitana de Salvador, encerrando uma das etapas mais aguardadas de um caso que provocou comoção na Bahia e em todo o país. Após dois dias de julgamento no Fórum Desembargador Gerson Pereira dos Santos, o veredito foi concluído na noite de quarta feira, 25 de março, com a definição de penas que, somadas, se aproximam de 100 anos de prisão em regime fechado. A decisão reforça o entendimento da Justiça de que Sara foi vítima de um crime planejado, brutal e marcado pela lógica do feminicídio.
De acordo com a sentença, Ederlan Santos Mariano, marido da vítima e apontado como mentor do assassinato, foi condenado a 34 anos e 5 meses de reclusão. Victor Gabriel Oliveira Neves recebeu pena de 33 anos e 2 meses. Já Weslen Pablo Correia de Jesus, conhecido como Bispo Zadoque, foi condenado a 28 anos e 6 meses. Os três foram responsabilizados por feminicídio qualificado por motivo torpe, ocultação de cadáver e associação criminosa, em um julgamento decidido por sete jurados que responderam aos quesitos formulados pelo juiz responsável pelo caso.
A condenação representa não somente a punição de três acusados. Ela consolida judicialmente a narrativa de que Sara Freitas foi vítima de uma ação premeditada e executada com extrema violência, em um contexto que ultrapassa a esfera criminal e toca diretamente uma ferida social persistente. O reconhecimento do feminicídio neste caso lança luz sobre uma realidade em que mulheres seguem sendo mortas dentro de relações marcadas por controle, posse, humilhação e silenciamento, muitas vezes por pessoas do próprio círculo de confiança.
O crime ocorreu em outubro de 2023 e, desde então, passou a ser acompanhado com forte repercussão pública. Sara desapareceu após sair de casa e, dias depois, seu corpo foi encontrado às margens da BA 093, em Dias D’Ávila, em circunstâncias que chocaram investigadores, familiares e a opinião pública. As apurações apontaram que ela foi atraída para uma emboscada, morta e depois teve o corpo ocultado, numa tentativa de apagar vestígios e dificultar a responsabilização dos envolvidos.
Com a nova decisão, todos os quatro envolvidos diretamente no caso já foram condenados pela Justiça. Antes deste julgamento, Gideão Duarte de Lima, apontado como participante da dinâmica criminosa, já havia sido sentenciado em 2025 a mais de 20 anos de prisão em regime fechado. O desfecho judicial fecha, ao menos no campo penal, o ciclo de responsabilização dos acusados, mas não encerra o impacto social de um crime que simboliza a vulnerabilidade de tantas mulheres diante da violência doméstica e de gênero.
A sentença também devolve ao debate público uma pergunta incômoda e urgente. Quantos sinais de violência ainda são ignorados até que uma mulher seja morta. Em um país onde os índices de feminicídio seguem alarmantes, casos como o de Sara Freitas não podem ser tratados apenas como tragédias individuais. Eles precisam ser compreendidos como expressão de uma estrutura que ainda falha em prevenir, acolher, proteger e interromper ciclos de violência antes que o desfecho seja irreversível.
Ao transformar dor em resposta institucional, o julgamento desta semana oferece um recado importante. A violência contra a mulher não pode ser relativizada, romantizada nem empurrada para o silêncio. A condenação dos envolvidos na morte de Sara Freitas é uma resposta da Justiça, mas também um chamado para que a sociedade enxergue o feminicídio não como exceção, e sim como uma urgência coletiva que exige vigilância, denúncia, rede de apoio e compromisso permanente com a vida das mulheres.
