Declaração de Wilson Cardoso reacende debate sobre cidades do sertão que investem milhões em eventos enquanto população enfrenta carências em saúde, moradia e serviços básicos.

A declaração do presidente da União dos Municípios da Bahia (UPB), Wilson Cardoso, reacendeu um debate antigo no interior baiano, sobre até que ponto é justificável gastar milhões de reais em festas populares enquanto grande parte da população ainda convive com problemas básicos de infraestrutura e pobreza extrema. Durante entrevista à Rádio Sociedade da Bahia, o prefeito de Andaraí afirmou que muitos municípios precisam rever prioridades antes de investir em grandes eventos, principalmente agora no período junino. Segundo ele, há cidades onde moradores vivem em condições precárias, sem saneamento adequado e sem renda suficiente sequer para participar das próprias festas promovidas pelas prefeituras.

“Não faz sentido fazer festa grande com população sem renda”, declarou o gestor ao defender maior equilíbrio entre investimentos culturais e ações voltadas à melhoria da qualidade de vida da população”.

A fala ganhou repercussão porque atinge diretamente uma realidade comum no sertão baiano. Em diversas cidades do semiárido, prefeituras anunciam atrações nacionais e estruturas grandiosas para o São João ao mesmo tempo em que moradores enfrentam dificuldades no acesso à saúde, falta de pavimentação, escassez de água e problemas históricos na educação pública.

Nos últimos anos, os gastos com festejos juninos cresceram significativamente na Bahia. Municípios pequenos e médios passaram a disputar visibilidade regional com grandes contratações artísticas, muitas vezes assumindo despesas milionárias em cidades dependentes quase exclusivamente de recursos federais.

O contraste entre os investimentos em entretenimento e a precariedade dos serviços públicos chama atenção principalmente em municípios sertanejos onde a pobreza continua sendo parte da rotina da população. Em muitas localidades, famílias ainda vivem em casas sem banheiro, estradas vicinais permanecem deterioradas e unidades de saúde operam com estrutura limitada.

Wilson Cardoso reconheceu a importância cultural e econômica das festas populares, mas afirmou que os eventos só fazem sentido quando acompanham avanços reais no desenvolvimento local. Para ele, as celebrações precisam refletir crescimento econômico, fortalecimento da zona rural e geração de emprego.

“A festa é boa quando o município está produzindo, quando está crescendo no turismo. Como fazer uma grande festa se a população não tem dinheiro nem para participar?”, questionou.

O presidente da UPB também chamou atenção para a situação de moradores que frequentam os festejos sem condições financeiras mínimas para consumir alimentos ou bebidas durante os eventos.

“Às vezes a pessoa vai dar uma volta e não tem dinheiro para uma bebida ou uma comida simples. Isso preocupa”, afirmou.

As declarações ocorrem em um momento de aumento da fiscalização sobre os contratos realizados pelas prefeituras durante o período junino. Órgãos de controle vêm ampliando o acompanhamento das despesas públicas destinadas aos festejos, especialmente em municípios que enfrentam dificuldades financeiras ou decretos de emergência por estiagem.

Apesar das críticas, prefeitos continuam defendendo os eventos como importantes motores da economia local. O argumento é de que as festas movimentam hotéis, restaurantes, ambulantes e o comércio informal, gerando renda temporária em cidades onde a atividade econômica costuma ser limitada.

No entanto, especialistas em gestão pública alertam que o problema não está necessariamente na realização das festas, mas na ausência de equilíbrio entre o investimento em entretenimento e a garantia de serviços essenciais para a população.

No sertão da Bahia, onde a desigualdade social permanece evidente, a fala do presidente da UPB acabou transformando em debate público uma contradição cada vez mais visível: municípios pobres promovem festas cada vez mais caras enquanto demandas básicas da população seguem sem solução.