Entre cantorias no Pelourinho e debates na Alba, Bahia revive a luta pela preservação de um dos maiores símbolos da resistência nordestina
No chão de pedra do Pelourinho, onde a história da Bahia ecoa entre ladeiras e casarões antigos, um jumento inflável gigante chama a atenção de quem passa. Debaixo do sol forte de Salvador, repentistas puxam versos improvisados enquanto turistas, trabalhadores e moradores param para ouvir histórias de um animal que durante séculos ajudou a carregar água, lenha, mantimentos e esperança pelos caminhos secos do sertão.
A cena mistura arte, protesto e memória. Até esta terça feira, a ação cultural ocupa o Centro Histórico da capital baiana para denunciar o avanço do abate de jumentos no Brasil e alertar para o desaparecimento acelerado desses animais, tão presentes na vida do povo nordestino. A partir de quarta feira, o debate segue para a Assembleia Legislativa da Bahia, onde pesquisadores brasileiros e estrangeiros participam do IV Workshop Internacional Jumentos do Brasil Futuro Sustentável.
Por trás da mobilização existe uma preocupação que atravessa o sertão e chega aos gabinetes da Justiça. Em menos de três décadas, a população de jumentos no país caiu drasticamente. O principal motivo apontado por pesquisadores e entidades de proteção animal é a exportação de peles para a China, utilizadas na fabricação do eijiao, produto feito a partir do colágeno extraído das carcaças e consumido pela medicina tradicional chinesa.
Na Bahia, a discussão ganhou força depois que a Justiça Federal proibiu o abate dos animais no estado. A decisão apontou indícios de maus tratos, problemas sanitários e risco de extinção da espécie. O entendimento jurídico se apoia no princípio constitucional que protege os animais contra práticas cruéis e reconhece a necessidade de preservação ambiental e cultural.
As imagens que alimentam o debate são duras. Caminhões lotados cruzando estradas sob calor intenso, animais debilitados durante o transporte e denúncias sobre longos períodos sem água e alimentação. Pesquisadores também alertam para possíveis riscos sanitários ligados à falta de controle adequado nos abatedouros e à circulação de doenças infecciosas que podem atingir seres humanos.
Mas a discussão não encontra consenso. Defensores da atividade econômica argumentam que o comércio das peles gera empregos e movimenta recursos em regiões pobres do Nordeste. Há quem diga que o abandono dos jumentos nas estradas aumentou nos últimos anos devido à mecanização do campo e à perda da função tradicional do animal no trabalho rural. Para esses grupos, uma cadeia produtiva regulamentada poderia evitar sofrimento e trazer desenvolvimento econômico.
No meio dessa disputa, o jumento reaparece não apenas como animal de carga, mas como personagem da própria identidade nordestina. No sertão baiano, ele sempre foi companheiro silencioso das famílias que atravessaram estiagens, carregaram feira, buscaram água em açudes distantes e venceram caminhos onde nem carro passava. Sua presença atravessa cantigas, cordéis, fotografias antigas e lembranças de infância espalhadas pelas comunidades do interior.
Em Salvador, entre versos improvisados e aplausos tímidos, o protesto ganha um tom de despedida para muitos sertanejos que temem ver desaparecer um símbolo da resistência nordestina. O debate sobre o abate dos jumentos já ultrapassa a discussão econômica e jurídica. Agora, ele também fala de memória, pertencimento e da tentativa de impedir que o silêncio tome conta dos caminhos por onde o sertão aprendeu a caminhar ao lado de seus animais mais fiéis.
