Da gratidão à perseguição, da liderança ao isolamento, os ciclos que transformam aliados em adversários e levam gestores a repetir erros que a história insiste em registrar.
O bicho do poder
Poucos fenômenos são tão recorrentes na política municipal quanto a transformação de gestores que chegam ao comando do Executivo movidos pelo discurso da mudança, da união e do serviço público, mas que, ao longo do caminho, acabam sucumbindo à vaidade, ao personalismo e à perigosa ilusão da invencibilidade. É o que muitos observadores da vida pública costumam chamar de “bicho do poder”.
Trata-se de uma espécie de embriaguez política que não escolhe partido, ideologia ou região. Ela se aproxima silenciosamente, geralmente alimentada por aduladores profissionais, especialistas em convencer prefeitos de que seu prestígio é permanente, de que sua popularidade é indestrutível e de que qualquer crítica representa apenas inveja ou oposição. Aos poucos, o gestor passa a acreditar que se tornou indispensável, intocável e dono dos destinos do município.
A história política do interior baiano está repleta de exemplos semelhantes. Gestores que, após a eleição ou reeleição, passaram a ignorar conselhos, afastar colaboradores experientes e desprezar lideranças que foram fundamentais em sua caminhada. O que antes era diálogo transforma-se em imposição. O que antes era gratidão converte-se em ingratidão. E não raramente a divergência política passa a ser tratada como traição pessoal.
Aqueles que conseguem permanecer imunes a esse processo costumam ser justamente os que preservam a humildade, mantêm os pés no chão, compreendem a transitoriedade dos mandatos e entendem que o poder não pertence ao ocupante do cargo, mas ao povo que o confiou temporariamente. São exceções cada vez mais valorizadas em tempos de personalismo exacerbado.
O Rei do Vale
Ainda dentro dessa reflexão sobre os efeitos da vaidade na administração pública, chama atenção a postura de determinados agentes políticos que passam a cultivar uma imagem de superioridade quase monárquica, cercando-se de admiradores e construindo narrativas grandiosas sobre si próprios.
Existe, acreditem, um personagem da política regional que, segundo relatos amplamente comentados em determinados círculos, costuma confidenciar aos integrantes mais próximos de seu grupo que pretende ser coroado como “O Rei do Vale”. A alcunha, que pode soar folclórica para alguns, revela uma visão preocupante sobre o exercício do poder quando a realidade passa a ser substituída pela adulação.
Segundo comentários que circulam nos bastidores políticos, esse mesmo personagem estaria convencido de que sua influência ultrapassa os limites institucionais, buscando ampliar sua presença em diferentes espaços de poder por meio de aliados e intermediários. Também são alvo de comentários e questionamentos situações relacionadas a investigações envolvendo “heranças”, suposto enriquecimento incompatível com a renda declarada e possíveis iniciativas que, segundo críticos, poderiam configurar tentativas de influenciar estruturas públicas em benefício próprio. Naturalmente, todas essas situações exigem apuração séria, respeito ao contraditório e observância ao devido processo legal, sem prejulgamentos ou condenações antecipadas.
O que a experiência política ensina é que nenhum projeto baseado exclusivamente na vaidade costuma resistir ao teste do tempo. Mais cedo ou mais tarde, a realidade impõe limites àqueles que confundem autoridade com propriedade e liderança com submissão.
Menosprezar a base de apoio é a chave para a derrota
Outra lição que a política insiste em repetir é que toda divisão enfraquece. E poucas divisões são tão destrutivas quanto aquelas provocadas pelos próprios líderes que chegam ao poder cercados de aliados e, posteriormente, passam a governar apenas com os que concordam integralmente com suas decisões.
Não foram poucos os prefeitos que construíram vitórias expressivas e, posteriormente, assistiram à erosão de suas bases políticas por não valorizarem aqueles que lhes deram sustentação nos momentos mais difíceis. Em muitos casos, conselheiros experientes são substituídos por bajuladores. Amigos de longa trajetória cedem espaço a oportunistas de ocasião. Pessoas que alertam sobre riscos são afastadas, enquanto aquelas que apenas aplaudem ganham influência crescente.
O resultado costuma ser previsível. Quando a luz dos cargos perde intensidade, quando a máquina pública deixa de funcionar como instrumento de poder e quando a disputa eleitoral finalmente chega, muitos percebem tarde demais o tamanho dos equívocos cometidos. Descobrem que os aplausos não eram lealdade, que a bajulação não era amizade e que os verdadeiros sustentáculos de suas trajetórias haviam sido abandonados ao longo do caminho.
As eleições de 2028 poderão oferecer mais um capítulo dessa velha história. Alguns líderes talvez compreendam apenas diante das urnas aquilo que se recusaram a ouvir durante os mandatos. Perceberão que governar exige mais do que autoridade. Exige humildade para ouvir, grandeza para reconhecer quem ajudou na caminhada e sabedoria para entender que nenhum projeto político sobrevive por muito tempo quando a vaidade ocupa o lugar da gratidão.
A política é passageira. Os mandatos têm prazo. O poder muda de mãos. Mas as consequências da arrogância, da perseguição a aliados e da incapacidade de conviver com opiniões divergentes costumam permanecer registradas por muito mais tempo do que qualquer mandato.
