Alvo dos adversários em diferentes momentos, candidato da oposição mantém estratégia, apresenta propostas e consegue levar problemas do atual governo para o centro do confronto.
O primeiro debate entre os candidatos ao Governo da Bahia nas eleições de 2026 terminou deixando uma impressão que começou a se desenhar ainda durante a transmissão e ganhou força nas horas seguintes nas redes sociais e na cobertura dos principais veículos baianos. Em um confronto marcado por ataques, cobranças e estratégias bastante diferentes, ACM Neto conseguiu atravessar a pressão exercida por Jerônimo Rodrigues e Ronaldo Mansur sem abandonar o discurso que levou ao encontro. Mais do que responder aos adversários, o candidato da oposição procurou apresentar propostas e fazer com que os principais problemas enfrentados pelos baianos ocupassem o centro da discussão.
Não existe, até o momento, uma pesquisa científica realizada depois do debate que permita declarar matematicamente um vencedor. As manifestações nas redes sociais também precisam ser vistas com cautela, porque refletem mobilização de militantes, apoiadores e estruturas políticas. Ainda assim, a repercussão inicial, somada à leitura da cobertura jornalística, permite identificar diferenças importantes entre as estratégias adotadas pelos três concorrentes.
ACM Neto chegou ao debate determinado a discutir principalmente segurança pública, saúde, educação, infraestrutura e a situação do Planserv. Foi exatamente o que fez ao longo do programa. A reportagem do Correio destacou que as críticas à situação da segurança e da saúde partiram principalmente de Neto e registrou ainda que Jerônimo Rodrigues evitou confrontá-lo diretamente em algumas das oportunidades disponíveis, escolhendo Ronaldo Mansur para formular perguntas.
O desenho do debate acabou produzindo uma situação curiosa. Embora ACM Neto tenha sido questionado duramente por Ronaldo Mansur e tenha recebido críticas constantes de Jerônimo, conseguiu utilizar boa parte dos confrontos para retornar aos temas que havia escolhido previamente. Em vez de permanecer exclusivamente na defensiva, buscou transformar ataques políticos em oportunidades para discutir problemas da administração estadual.
A mídia baiana registrou que o primeiro bloco foi marcado por confrontos envolvendo saúde e educação. Mansur questionou Neto sobre sua posição política nacional, enquanto o ex-prefeito respondeu retomando questões relacionadas ao desempenho da educação baiana e posteriormente questionou Jerônimo sobre a fila da regulação. No segundo bloco, o confronto entre Neto e Jerônimo ficou ainda mais acirrado e envolveu saúde, obras, segurança pública, rodovias e a relação política com o presidente Lula.
Foi justamente nesse ambiente de pressão que Neto parece ter encontrado seu principal espaço no debate. Enquanto os adversários tentavam associá-lo a temas nacionais, ao passado político de sua família e até a questionamentos sobre o uso de inteligência artificial na elaboração do plano de governo, ele procurava reconduzir a discussão para questões diretamente relacionadas à administração estadual.
Em segurança pública, criticou a postura do governador e afirmou que pretende assumir pessoalmente a responsabilidade pela área caso seja eleito. Na saúde, voltou a abordar as mortes de pacientes enquanto aguardavam atendimento pela regulação. No Planserv, prometeu ampliar a rede credenciada de clínicas e hospitais. Também apresentou a proposta do Pix Saúde, pela qual o Estado recorreria à rede privada quando não houvesse atendimento disponível na rede pública. Essas propostas foram registradas na cobertura do debate.
O último bloco reforçou essa estratégia. Quando os candidatos foram chamados a abordar alguns dos assuntos de maior repercussão na internet, Neto tratou de economia, relacionou desenvolvimento à educação, falou sobre aeroportos do interior, criticou as condições das estradas e cobrou o andamento da Ferrovia de Integração Oeste Leste. Nas considerações finais, questionou diretamente o eleitor sobre os resultados apresentados pelo atual governador e voltou aos problemas de educação, saúde e segurança.
Jerônimo Rodrigues adotou postura diferente. Como governador candidato à reeleição, procurou defender as realizações de sua administração e o legado do grupo político que governa a Bahia há duas décadas. Destacou investimentos, defendeu políticas estaduais e procurou relacionar sua candidatura à parceria com o presidente Lula. Também atacou a gestão de ACM Neto em Salvador e questionou a postura política do adversário.
Entretanto, uma característica chamou atenção na própria cobertura jornalística. Em duas oportunidades em que poderia escolher Neto para formular uma pergunta, Jerônimo optou por Ronaldo Mansur. especialistas interpretaram essas escolhas como uma tentativa de evitar o confronto direto naquele momento. Isso não significa ausência de embate entre os dois principais candidatos. Pelo contrário. Quando ficaram diretamente frente a frente, especialmente no segundo bloco, o confronto foi um dos momentos mais tensos da noite.
Ronaldo Mansur também teve participação relevante. O candidato do PSOL demonstrou que não pretende ocupar simplesmente o papel de coadjuvante e fez críticas aos dois principais adversários. Questionou aspectos da administração estadual, criticou contratações por meio do Reda e se posicionou contra a política de aprovação automática adotada na educação. Também atacou Neto em questões políticas nacionais e na discussão sobre o Planserv.
Nas redes sociais, como costuma acontecer após debates eleitorais, cada campo rapidamente proclamou seu próprio vencedor. Publicações ligadas ao campo governista passaram a apresentar Jerônimo como vencedor e a destacar momentos em que teria pressionado Neto. Um dos conteúdos encontrados durante a busca, por exemplo, atribuía explicitamente a vitória ao governador e ressaltava equilíbrio e compromisso durante sua participação. Do outro lado, apoiadores de Neto passaram a reproduzir trechos em que o candidato cobra o governo sobre segurança, regulação, estradas e obras.
Essa batalha digital, entretanto, não deve ser confundida com uma pesquisa de opinião. Redes sociais são fortemente influenciadas pelo nível de organização e mobilização das campanhas. Elas servem melhor para identificar quais momentos repercutiram, quais mensagens ganharam circulação e quais estratégias conseguiram alimentar o debate público.
E nesse aspecto ACM Neto parece ter alcançado um objetivo importante. O candidato chegou afirmando que pretendia colocar segurança pública e fila da regulação no centro do confronto e conseguiu fazer exatamente isso. Antes mesmo do debate, havia anunciado que essas seriam algumas de suas prioridades. Ao final, saúde, segurança, educação, Planserv, estradas e grandes obras estavam entre os assuntos mais discutidos.
O próprio Neto afirmou depois do encontro, considerar seu desempenho muito positivo e disse ter enfrentado dois adversários, classificando a dinâmica como um jogo combinado. Trata se evidentemente da avaliação do próprio candidato, e não de uma constatação independente, mas sua leitura ajuda a compreender a estratégia adotada. Ele disse ainda que procurou mostrar diferenças em relação a Jerônimo, lembrar promessas feitas em 2022 e apresentar caminhos para o futuro.
Talvez esteja justamente aí o principal saldo político do debate para ACM Neto. Um candidato de oposição não precisa apenas apontar problemas. Precisa convencer o eleitor de que sabe o que faria de diferente. Ao combinar cobranças com propostas, Neto procurou avançar dessa primeira etapa para a segunda.
Jerônimo, por sua vez, deixou claro que pretende transformar a defesa de seu governo, a presença de Lula e o legado das administrações petistas em importantes pilares da campanha. Mansur mostrou disposição para ocupar uma faixa própria do debate, criticando governo e oposição e tentando romper a lógica de um confronto exclusivamente entre Neto e Jerônimo.
O primeiro debate, portanto, dificilmente modificará sozinho o cenário eleitoral. Debates raramente produzem efeitos isolados dessa dimensão. Mas eles ajudam a formar percepções e, sobretudo, revelam quais candidatos conseguem controlar melhor sua própria estratégia quando colocados sob pressão.
Nesse aspecto, ACM Neto teve uma noite produtiva. Mesmo sendo atacado pelos dois adversários em diversos momentos, não permitiu que todo o seu tempo fosse consumido apenas pela defesa. Conseguiu responder, contra atacar e, principalmente, apresentar ideias e soluções relacionadas aos problemas que escolheu discutir.
Jerônimo mostrou capacidade de reação e buscou defender seu governo, mas passou parte do encontro respondendo justamente sobre áreas nas quais a oposição pretende concentrar a campanha. Mansur conseguiu visibilidade e mostrou disposição para confrontar os dois lados.
Ao fim da noite, ninguém possui números confiáveis para decretar um vencedor entre os milhões de eleitores baianos. Mas existe uma diferença entre proclamar vitória e avaliar desempenho. Pela capacidade de manter sua estratégia mesmo sob pressão, recolocar continuamente os problemas do Estado no debate e associar críticas a propostas, ACM Neto deixou o primeiro confronto com argumentos para considerar que cumpriu melhor sua missão.
Agora começa uma disputa talvez tão importante quanto o próprio debate. Nas redes sociais, nos programas de rádio, nos portais e nas conversas do dia seguinte, cada campanha tentará convencer o eleitor de sua própria versão do que aconteceu. O verdadeiro vencedor, porém, não será definido pelos cortes de vídeo produzidos pelas campanhas, mas pela capacidade de cada candidato transformar sua atuação no debate em confiança e, finalmente, em voto.
