Reuniões reservadas, pressões cruzadas e resistência interna travam anúncio, enquanto PSD avança com Ivana Bastos e Wilson Cardoso surge como plano alternativo
A noite desta segunda feira 30 foi tratada como decisiva nos bastidores do governo da Bahia. O governador Jerônimo Rodrigues recebeu, em sequência e de forma reservada, o ex-ministro Geddel Vieira Lima e o senador Otto Alencar na Governadoria, em Salvador, em meio ao impasse que já se arrasta há semanas sobre a definição do nome que ocupará a vice na chapa de 2026.
O movimento foi interpretado como uma tentativa clara de fechar a equação antes do feriado da Semana Santa, mas também expôs o tamanho das divergências ainda abertas dentro da base aliada. A situação de Geraldo Júnior, que já vinha se desgastando internamente, é hoje considerada praticamente insustentável. Nos corredores do poder, a avaliação predominante é de que ele dificilmente permanecerá na chapa, embora ninguém admita isso publicamente.
A conversa com Geddel foi tensa, segundo relatos de quem acompanha de perto as articulações. O MDB tenta resistir à perda da vice e cobra do governador o cumprimento de compromissos firmados na eleição passada. Há um esforço do Palácio para evitar rompimento, mas já se admite que a retirada do partido da posição é um cenário cada vez mais provável. O desafio é como fazer isso sem provocar uma crise maior que respingue na montagem da chapa proporcional e na relação com prefeitos ligados ao MDB.
Na sequência, Otto entrou em cena em uma reunião que, oficialmente, teria tratado apenas de assuntos partidários. Nos bastidores, no entanto, ninguém acredita que o tema da vice tenha ficado de fora. O PSD opera como favorito para indicar o nome e trabalha com a convicção de que a vaga será sua, fruto de um acordo político já amadurecido com o próprio Jerônimo.
Nesse contexto, o nome de Ivana Bastos segue como o mais forte dentro do PSD e também o que reúne maior aceitação no núcleo do governo. Ela agrega perfil institucional, boa relação com prefeitos e ainda atende ao desejo de incluir uma mulher na chapa majoritária. Apesar disso, é justamente nela que reside o principal impasse.
Ivana resiste. E resiste com convicção. A avaliação dela, compartilhada com aliados próximos, é de que a vice governadoria não garante protagonismo político real. Hoje, como presidente da Assembleia, ela controla uma estrutura de poder consolidada, com visibilidade própria, influência orçamentária e forte interlocução com o interior. Migrar para a vice significaria, na prática, abrir mão desse espaço para assumir um papel que depende diretamente do estilo de gestão do governador.
Esse cálculo tem travado a definição. O governo tenta convencê-la de que a vice terá mais protagonismo em um eventual segundo mandato, mas ainda não conseguiu oferecer garantias suficientes para mudar sua posição. O tempo, porém, virou um fator de pressão. A demora começa a incomodar aliados, que veem risco de desgaste político se a decisão continuar sendo adiada.
É nesse vácuo que o nome de Wilson Cardoso passou a ganhar corpo nas últimas horas. Impulsionado por um movimento de prefeitos do interior, ele surge como alternativa viável caso Ivana mantenha a recusa. Seu principal ativo é o municipalismo. Como presidente da UPB, ele construiu uma rede de apoio entre gestores municipais e tem trânsito em diferentes regiões do estado, algo visto como estratégico para a eleição.
Ainda assim, dentro do próprio governo, há cautela. Wilson não carrega o mesmo peso institucional de Ivana e sua eventual escolha exigiria um rearranjo político mais complexo, envolvendo partidos da base e lideranças regionais. Ele é, neste momento, uma solução possível, mas ainda não consensual.
O que mais preocupa a cúpula governista não é a falta de opções, mas o impacto da decisão. Se o PSD for confirmado com a vice, será necessário acomodar o MDB para evitar fissuras. Se Ivana for escolhida, será preciso garantir a ela um papel que justifique a mudança. E, se o plano B prevalecer, o governo terá de administrar as expectativas criadas em torno do nome dela.
A ordem dentro do Palácio é resolver. A avaliação é de que prolongar o impasse só amplia ruídos, enfraquece a imagem de articulação política e mantém a base em estado de tensão. A tendência mais forte neste momento aponta para o PSD com a vaga, Ivana ainda à frente, mas com Wilson crescendo como alternativa concreta.
