Concorrência digital transforma o setor financeiro, reduz empregos e estruturas físicas, enquanto trabalhadores enfrentam sobrecarga e pequenas cidades sofrem com a falta de atendimento presencial

Bancários de todo o Brasil realizam nesta quinta feira, 20 de agosto, uma paralisação de 24 horas em meio ao impasse nas negociações da Campanha Nacional Unificada de 2026. A mobilização foi aprovada em assembleias da categoria após a rejeição da proposta apresentada pelos bancos e pode comprometer o atendimento presencial em diversas agências do país. Entre as reivindicações estão ganho real de 5% acima da inflação, valorização dos pisos salariais, reajustes nos benefícios e melhorias na participação nos lucros e resultados.

A paralisação ocorre em um momento de profunda transformação do sistema financeiro brasileiro. Mesmo mantendo resultados bilionários, os grandes bancos tradicionais enfrentam uma concorrência cada vez maior das instituições digitais e das fintechs. A resposta tem sido uma acelerada modernização tecnológica acompanhada pelo enxugamento das estruturas físicas. Pesquisa da Febraban mostra que 83% das transações bancárias já são realizadas pelos canais digitais e 78% acontecem pelo celular. Os investimentos em tecnologia devem alcançar R$ 50,4 bilhões somente em 2026.

Essa transformação, porém, vem acompanhada da redução de agências e postos de trabalho. Levantamento do Dieese, com base em dados do Caged, aponta que o setor bancário eliminou 8.910 empregos somente em 2025. Enquanto o mercado de trabalho brasileiro terminou aquele ano com saldo positivo de 1,28 milhão de vagas formais, os bancos seguiram na direção contrária. Na Bahia, foram perdidos 389 postos de trabalho no período.

A diminuição da presença física também impressiona. Dados divulgados neste ano apontam que os cinco maiores bancos reduziram conjuntamente 1.345 agências em apenas doze meses. Em uma perspectiva mais longa, cerca de 9,5 mil agências foram fechadas desde 2015 e aproximadamente 92 mil postos de trabalho desapareceram. Ao mesmo tempo, o avanço tecnológico fez com que agências e caixas eletrônicos representassem uma parcela cada vez menor das operações bancárias.

O contraste alimenta a insatisfação dos trabalhadores. Os bancos continuam movimentando cifras bilionárias e alguns dos maiores grupos mantêm elevada rentabilidade. O Itaú, por exemplo, registrou lucro líquido de R$ 12,4 bilhões somente no segundo trimestre de 2026, enquanto o Banco do Brasil havia encerrado 2025 com lucro líquido ajustado de R$ 20,68 bilhões.

Para quem permanece empregado, sindicatos sustentam que o enxugamento das equipes amplia responsabilidades, cobrança por resultados e sobrecarga. Para os clientes, especialmente aqueles que ainda dependem do atendimento presencial, o problema assume outra dimensão. A digitalização trouxe rapidez e comodidade para milhões de brasileiros, mas não eliminou a necessidade das agências para situações mais complexas, como renegociações, contratação de crédito e atendimentos que exigem orientação especializada. A própria Febraban reconhece que os pontos físicos continuam relevantes para operações dessa natureza.

Nas pequenas cidades do interior, as consequências são ainda mais severas. O fechamento de uma única agência pode significar deixar um município inteiro sem atendimento bancário presencial. Aposentados, pensionistas, beneficiários de programas sociais, agricultores, pequenos comerciantes e moradores com pouca familiaridade com aplicativos acabam dependendo de correspondentes bancários ou precisam viajar para municípios vizinhos para resolver problemas que antes eram solucionados na própria cidade.

Essa realidade também provoca reflexos no comércio local. Quando aposentados e trabalhadores precisam se deslocar para sacar benefícios, receber pagamentos ou resolver pendências bancárias, parte desse dinheiro tende a circular na cidade onde o serviço está disponível. Para municípios pequenos, portanto, a retirada de uma agência não representa apenas a perda de um estabelecimento financeiro, mas a redução de um serviço essencial e de uma estrutura que ajuda a movimentar a economia.

A paralisação desta quinta feira expõe, assim, uma discussão que ultrapassa a disputa salarial. De um lado está um sistema bancário altamente lucrativo, tecnológico e cada vez mais digital. Do outro estão trabalhadores pressionados pela redução das equipes e uma parcela da população que ainda necessita do contato humano para acessar serviços financeiros. Entre aplicativos cada vez mais sofisticados, estruturas mais enxutas e agências desaparecendo do mapa, o custo da transformação acaba sendo sentido principalmente por quem trabalha nos bancos e por quem vive longe dos grandes centros.

Durante a paralisação, canais digitais, Pix e caixas eletrônicos tendem a continuar funcionando, mas o atendimento presencial poderá ser afetado. Os vencimentos de contas não são automaticamente prorrogados em razão do movimento, por isso clientes devem ficar atentos aos compromissos financeiros previstos para esta quinta feira.