O alfaiate é o profissional responsável por cozer roupas masculinas, de alta costura, e costumes de mulher. Até um passado recente era uma profissão requisitada, que atendia, geralmente, aos desejos de clientes que não dispensavam um bom terno feito à mão. O problema é que o tempo passou, as mudanças tecnológicas se acentuaram, os custos dos insumos foram elevados, além da produção em massa de ternos pela indústria, que fez com que esses profissionais praticamente sumissem do mercado. Mas, quem gosta de um corte impecável, um alento: ainda há profissionais de mão cheia, poucos, é fato, a disposição para atender a clientes de gosto exigente. Um deles, é o Mestre Theo, 71 anos, que mora numa rua sem saída, entre a Ribeira e a Baixa do Bonfim em Salvador.
Natural de Nazaré das Farinhas, mestre Theobaldo Rodrigues dos Santos trabalha como alfaiate há mais de 50 anos. Só em São Paulo atuou por 15 anos. No entanto, foi na Bahia que encontrou régua e compasso. Para ele, cozer sob medida é um dom, uma arte em extinção. Ele prefere não falar que a profissão de alta costura vá acabar, mas reconhece que falta, e muito, incentivo para que novos profissionais entrem no mercado da criação sob medida.
Mestre Theo reconhece que não há mais a busca que havia dos homens na hora de confeccionar seus ternos e camisaria. “As mudanças impostas pela tecnologia e pela produção em massa, sobretudo, com o declino do mercado têxtil (que já foi tão pujante) contribuíram para que a profissão perdesse espaço no mercado”. Mas ele faz uma ressalva: “pode ter perdido espaço, mas não o encanto”.
Na visão do alfaiate, lojas de grife, com suas araras abarrotadas de ternos bem feitos e caros, ou ainda lojas mais simples e até mesmo as de departamento, mantêm uma distância incalculável sobre o prazer de se vestir bem, em um terno sob medida, “feito pra você”. Para ele, “nada substitui o prazer de vestir um terno impecavelmente bem cortado, ajustado no próprio corpo”.
Para se ter uma ideia, para fazer um terno ‘de primeira’ são necessárias entre três a quatro provas. Nos tempos de hoje, cada vez mais corrido, parar os afazeres para experimentar uma roupa pode ser um impeditivo para isso, afastando a clientela. “No entanto, isso pra mim não é problema. Tenho clientes que são médicos, juízes, advogados, desembargadores e, sobretudo, políticos, que me pedem e eu vou encontrá-los para fazer as medidas”, pondera o “alfaiate dos políticos”, que tem público garantido, que admira e consome seus produtos o ano inteiro. “Não da mesma intensidade que tínhamos há dez anos, mas temos grandes amigos”.
Falta de incentivo e divulgação são problemas para a profissão
Mestre Theo aponta a falta de divulgação como um dos maiores problemas para o declínio da profissão. E isso, não só dos alfaiates, como também das costureiras que coziam diretamente para as famílias brasileiras, desde os tempos áureos da nobreza e da burguesia. “O problema é que próprio mercado e a industrialização contribuíram e muito para a baixa procura pela alta costura, pelos ternos feitos a mão”. Mas ele enfatiza ainda que existem pessoas que conhecem o prazer de se vestir bem, impecavelmente, e que não abrem mão disso.
Questionado sobre a principal diferença entre um terno de grife e um feito por um alfaiate, Mestre Theo não titubeia e diz que “o alfaiate estuda a anatomia do corpo, faz todas as medidas com precisão. Já as roupas industrializadas, mesmo que de grife, precisam ser ajustadas, pois são feitas numa forma padrão. “O nosso é um trabalho personalizado”. Ele diz que há inúmeros clientes que chegam a comprar ternos de marcas conhecidas, sobretudo em viagens internacionais, mas que recorrem a ele para fazer os ajustes “que só um bom alfaiate sabe fazer”.
A variedade de tecidos é outro aspecto destacado pelo alfaiate. Se o terno é para o dia, para o dia a dia, para a noite, ou ainda um terno coringa, que possa ser usado em qualquer ocasião. “Há ternos bem cortados, com tecidos especiais, italianos, que custam aproximadamente R$1,8 mil a R$2 mil. Mas cada profissional cobra seu preço”. Ele diz também que “tem gente que não abre mão de um terno de linho puro, bem engomado. Da mesma forma que tem vários médicos que preferem fazer seus jalecos sob medida, de linho puro ou de Super 100”. Mestre Theo ressalta ainda que o cliente pode optar por comprar o próprio tecido numa loja ou importadora, ou escolher no seu próprio atelier. Como os tecidos são importados, geralmente ele encomenda em São Paulo e recebe por Sedex, um dia após a compra. “É super prático”.
Cortes diferenciam estilos Com sua experiência de mais de 50 anos, Mestre Theo explica que existem basicamente três tipos de cortes de terno. “Temos o clássico (ou americano), o inglês e o italiano. O clássico é um corte mais reto, solto, confortável e mais adequado para quem está acima do peso. O inglês é solto, mas levemente acinturado, e a calça é mais justa, mas não grudada ao corpo. O italiano é acinturado, possui mangas estreitas, é mais justo no peito e a calça tem cós mais baixo, sendo justa nas coxas”.
Ele explica também que a diferença entre os ternos pode ser percebida no número de botões. “O terno de um botão, por exemplo, é mais usado à noite, é mais elegante. Já o italiano é mais ajustado, conhecido como slim fit, que, em um tecido confortável, pode ser usado pelo homem moderno de noite e de dia”, enumera, ao completar que tem que observar a abertura do terno, se será lateral, nas costas ou não existirá. “Tudo depende do gosto do cliente” (veja abaixo).
Mestre Theo diz que até mesmo as pessoas mais tradicionais passaram a ajustar mais seus ternos ao corpo. De acordo com ele, decidido fazer o terno, o primeiro passo é escolher o tecido e começar a tirar as medidas. “Todo o processo de confecção de um bom terno leva aproximadamente 20 dias para ser concluído”. E mais, se a pessoa engorda ou emagrece com facilidade, o alfaiate diz que isso é facilmente resolvido, devido a possibilidade de fazer novos ajustes.
Ele reconhece também que os valores mais altos do que os cobrados em lojas de shopping acabam selecionando o público alvo. “Tem roupas de qualidade, acessíveis, mas nada se compara ao terno feito sob medida”. E mestre Theo se despede falando do sonho de ver novos alfaiates sendo formados para o marcado, ao apontar da escassez de profissionais da alfaiataria e alta costura: “Gostaria de ver uma escola formando alfaiates, aproveitando a mão de obra de jovens e crianças que não estejam incluídas socialmente. O Senac, por exemplo, poderia preparar novos profissionais da alfaiataria para oxigenar o mercado. No máximo você vê cursos rápidos de corte e costura, mas não há uma capacitação para o setor, como em São Paulo, onde nós temos até faculdades que oferecem cursos de alta costura e de alfaiataria”.
1- UM BOTÃO É CHIQUE – Usado nos modelos com lapela alongada, só funciona em ternos ajustados. Rende um visual bem moderno, ideal para eventos noturnos.
2- DOIS SÃO CONFIÁVEIS – É o abotoamento mais visto nos escritórios, pois garante uma modelagem acinturada, alongando o tronco, sem denunciar a sobra na barriga.
3- O TERCEIRO TRAZ SERIEDADE – Quem faz o estilo tradicional prefere, em geral, o terno de três botões, pois, além do ar de seriedade, destaca o combo colarinho e gravata.
MAIS DICAS:
Vale lembrar que o último botão do terno deve ficar aberto, imprescindivelmente.
O paletó pode ter uma, duas ou nenhuma fenda na parte de trás. Como o paletó deve cobrir as nádegas, as fendas auxiliam no momento de sentar.
