Dr. José Diniz de Morais é advogado, poeta, musico, escritor, paramirinhense, Procurador do Ministério Público do Trabalho em Natal – RN

“No dia em que eu vim-me embora/Minha mãe chorava em ai/Minha irmã chorava em ui/E eu nem olhava pra trás./ No dia que eu vim-me embora/[…] Vi que não entendia nada/[…]Afora isto ia indo, atravessando, seguindo/Nem chorando nem sorrindo/Sozinho pra Capital…”. Esta canção do Caetano Veloso, de um álbum de 1967, bem descreve, em letra e melodia, o início da saga de todos aqueles que abandonavam o interior e a roça para ir tentar vencer na Capital pelos estudos, fazer um curso superior e virar doutor. Não é uma história minha, mas de muitos que seguiram o mesmo caminho. Íamos direto para a capital.

A ideia mais próxima e o paralelo mais forte encontramos na saga dos que deixavam o interior e a roça para ir vencer na capital pelo trabalho. Se é verdade que no início, estas duas alternativas estavam ligadas diretamente ao fato da distinção social entre quem pode e quem não pode, entre ricos e pobres, muito cedo, a opção pelos estudos tornou-se pano de fundo de um movimento libertário e igualitário, de todo o interior, tornando-se acessível a todos indistintamente, pelo empenho de jovens sonhadores, como Antonio Gilvandro Martins Neves, que fundaram a “República” da minha cidade em Salvador, um centro estudantil para estudantes pobres.

Ao encerrar esta série de crônicas relativas à minha infância e puberdade, gostaria de marcar o momento exato em que tudo mudou e virei adulto antes da hora. É claro que, para minha mãe, eu já nasci adulto. Acho que não é bem assim. Infância, puberdade, maturidade e velhice são fases não suprimíveis da vida humana. O ser precoce não suprime em nós nenhuma destas experiências vitais, apenas transformam-se em neuroses e psicoses, inevitavelmente, ainda que sublimadas por anos.

Era um dia lindo de sol, fui para o colégio, como fazia todos os dias, sonhando com Salvador/Ba. Todas as turmas reunidas para a entrega das provas finais. Recebi meu envelope com as últimas provas mimeografadas, e uma folha de resultados: aprovado. Recebi os parabéns da diretora e dos professores e voltei para casa com meu amigo Bel. Eu acabara de concluir o primeiro ano científico e iria continuar os estudos em Salvador. Já vinha imaginando como seria a vida na capital. Havia conhecido Salvador no ano anterior e o local onde residiria no próximo ano. Meus irmãos moravam lá, na residência estudantil da minha cidade.

Do colégio redondo até em casa, andei toda a Avenida Centenário, cumprimentando um por um, como se já soubessem que seria a minha última volta completa na avenida, e na vida. Primeiramente, não o faria por falta de tempo; depois, de pernas. Os sonhos que eu alimentava deixavam o sabor acre da partida mais doce. É como se todas aquelas pessoas soubessem que eu estava de partida e que sertanejo, como diziam, só tem uma opção quando coloca o pé no asfalto: vencer.

Dentre muitos, ainda me lembro de Seu Zé de Ana Rosa, Ló, Zé Morais, Zé Dião, Seu Arlindo, Seu Procópio, Dizé, Tõe de Diola, Wilson do Banco, Seu Tota, Seu João Correia, Salu, Seu Jorge Preto, Zé da Banana, Tõe de Cantara, Clóvis, João de Trombone, Dejinha, Bido, Genaro, Tõe de Genaro, Seu Abel, Adelina, Nice, João Vicente, Seu Elias, Seu Ademário, Dona Nenzinha, Jove, Isaías, Dona Fiinha, Dona Maria de Inácio, Sebastiana, Salió, Lídia, Gilberto, Quincas Araújo, Duzinho, João de Maninha, João de Trajano, Jaime, Arnaldo de Elói, Seu Augusto Brasil etc. Ao lado, entre o Hospital e seu Abel, morava seu Paulinho, umas das pessoas mais extraordinárias que já conheci na vida, que vendia na feira roleto de cana e fazia teatro mamulengo.

Cheguei em casa, encontrei portão aberto e porta sem trinco. A casa estava totalmente vazia. No quintal, alguém ainda recolhia as últimas peças de uma mudança. Perguntei o que tinha acontecido. “Seu pai se mudou para perto do Cavalo Preto (Bairro)!”. Desci o beco de Helena. Bem ao lado de Seu Natagiz, um carro de mudança entregava as últimas peças. Diferentemente da nossa, uma casa sem quintal e de aluguel. Minha mãe vertia lágrimas sem chorar. Meu pai fingia não sentir. Venderam a nossa casa de morada para investir nos nossos estudos. 

Janeiro chegou e passou rápido. No início de fevereiro eu já estava de malas prontas: um violão, alguns livros, um rádio de pilha e algumas mudas de roupa. Uma caixa de papelão de biscoitos Tia Maria acomodava o resto da bagagem: rapadura, farinha e carne seca eram os itens de primeira necessidade. Minha mãe torrou uma galinha para a viagem. Era uma longa viagem, em grande parte dela, em estrada de chão. O ônibus partia às duas da tarde e chegava, no outro dia, às seis da manhã, à capital, quando não quebrava, o que era comum acontecer.

Meu pai pegou a minha cueca e pôs-lhe um bolso por dentro, costurando a boca com o dinheiro por dentro. Só me matando alguém conseguiria arrancar-me os trocados que levava. Salvador estava muito violenta, e eu precisava pagar a hospedaria. Se eu perdesse aquele, não teria outro. Enquanto eu me arrumava para a viagem, minha mãe ia sempre dizendo para ter cuidado com as drogas e com a violência, e meu pai, para ter cuidado com o dinheiro.

Minha tia Maria veio como se quisesse me salvar. Argumentava que eu era muito pequeno e que poderia esperar mais um pouco. Minha mãe ficou dividida; o meu pai, furioso. Minha tia na minha vida fora aquela pessoa do mimo e do dengo. Sempre que retornava da lavagem de roupa na beira do rio, depois de um dia de sol forte e privações, ainda me permitia longas horas no seu regaço e cafunés. E era preciso força para me tirar do seu colo. Mas, (in)felizmente, cresci, e o novo parto era inevitável.

Não preguei os olhos durante toda a viagem. O novo do caminha era encantador. Diferentemente da outra vez, não me haviam dado nada para dormir, como remédio contra enjoo. A visão à noite das luzes de Vitória da Conquista parecia a imagem do paraíso. A todo o tempo conferia uma carta de apresentação que carregava e que omiti dos meus pais. A carta de um amigo era dirigida a um dos representantes do incipiente movimento do Axé Music. Enquanto os meus pais sonhavam com curso universitário, eu sonhava com música.

Na rodoviária, um irmão mais velho esperava por nós. Percorremos toda a Bonocô rumo à residência estudantil. A residência ainda estava vazia. As aulas só começariam em março. Os poucos moradores presentes deram-nos as boas vindas e as primeiras lições de vida nova. Gilmar, Dinda, e Deon; Sonzão, Cidinalva e Neide; Hrica, Zica, Prego e Alfredão, cada um a seu modo, mostraram-nos os macetes de como sobreviver na capital. Como cozinhar, lavar, passar, limpar a casa, fazer feira etc.

O doutor Lídio, antigo amigo da família, conseguira uma vaga num colégio público para mim. O antigo Colégio Central. O colégio onde Rui Barbosa estudou e Ernesto Carneiro Ribeiro fez história na filologia da gramática portuguesa. O colégio vivia de histórias: greves e descasos arruinaram a primeira grande escola baiana. Um amigo me acompanhava na mesma empreitada, aquele da viagem e residência. E todos os dias andávamos a pé da Saúde até a Lapa. Não tínhamos o dinheiro do ônibus. Às tardes, descíamos até os Barris para estudar na Biblioteca Central do Estado.

Todas às noites sentávamos ao redor da mesa grande da sala para conversar e contar histórias do interior. E o assunto sempre acabava nas nossas opções de vestibular. Eu sempre titubeava entre comunicação social (jornalismo) e direito. Não raramente, Deon trazia o violão para umas modas. Revezava as canções com meu irmão e Deon fazia a percussão. Quando ouvia das meninas: “Você deveria ser cantor!”, minha imaginação voava até a carta de apresentação, que me abriria o átrio do estrelato.

Um dia, bem cedo, chamei um amigo da residência e pedi para que ele me levasse até à Avenida Sete, no Relógio de São Pedro, onde ficava o escritório do doutor Gileno Félix, advogado e grande compositor baiano. Um antigo amigo seu de faculdade e que muito admirava o meu violão dirigiu-lhe uma carta para que me avaliasse sobre as chances de seguir carreira musical. Fomos a pé mesmo pela Baixa do Sapateiro. Antes havia comprado umas fichas de telefone e ligado para saber se ele estava. A secretária disse que sim e quis saber do que se tratava. Expliquei por alto e avisei que estava indo.

Quando lá cheguei, ele estava em reunião, entreguei à secretária a carta e ela me deu um bilhete assinado por Gileno. Ela me reconheceu como o moço do telefone e disse-me que ele já havia ligado para o amigo no interior e que estava tudo certo. Recebi e fui logo abrindo para ler: “Favor comparecer ao bar e restaurante Segredos de Itapuã, a partir das 8:30h, na quinta-feira, do dia …, e procure por mim na mesa 9!”. Não tinha a menor ideia do que seria isto nem onde ficava. Meu amigo se ofereceu para ir me levar até lá na data marcada, que, na verdade, seria uma semana depois. O amigo ainda me contou do estrondoso sucesso que ele estava fazendo em parceria com o grande Lazzo Matumbi, e cantou para mim “Vem correndo, me abraça e me beija”.

Voltei para casa para os ensaios e preparação de voz. Escolhi aquelas músicas que estava mais acostumado a cantar nos barzinhos da minha cidade e nas serenatas na velha Praça da Matriz, e em algumas janelas da cidade. A todo tempo ouvia uma piadinha: “Vai estudar, rapaz, música não dá camisa a ninguém!”; “O pai se mata no trabalho e ele fica tocando violão!” etc. Eu ficava profundamente aborrecido, mas, eu continuava decidido a seguir carreira artística. Outro irmão já fazia a mesma coisa com as suas tentativas de cursar direção teatral, o que fortalecia em mim o grande desejo de continuar a tocar violão. Sem falar nas poesias e crônicas que continuava a escrever.

Logo após a chegada à residência estudantil do saudoso Zé Poeta, cordelista ímpar, fomos juntos, levados por Helhinho, a conhecer o grande sambista e compositor baiano Batatinha, no Bar Toalha da Saudade. Zé Poeta fortaleceu em mim a determinação; Batatinha fez-me refletir sobre a escolha. Famoso, mas velho e pobre, vivendo de aposentaria e de algumas migalhas de direitos autorais. Pela rotina dos hábitos, acho que ainda fazia alguns bicos para sobreviver. Naquela idade, todos os dias, no mesmo horário, passava em frente ao Bar de Dona Zezé e voltava à tarde, no mesmo horário.

Numa dessas idas e vinda de Batatinha, um dia pegou-se sentado na calçada em frente ao bar tentando cantar uma das suas principais composições “Hora da Razão”: “Se eu deixar de sofrer/Como é que vai ser/Para me acostumar/Se tudo é carnaval/Eu não devo chorar/Pois eu preciso me encontrar”. Ele parou, olhou, ouviu por alguns segundo, e prosseguiu. Não sei se estava do seu agrado, havia aprendido a música há pouco tempo. Teria talvez sentido mais se Caetano e Bethânia não o houvessem imortalizado na nossa MPB.

A semana que eu iria "dar uma canja" chegou. Como a ida até o ponto de encontro não me ficaria barato, resolvi ligar para o escritório do doutor Gileno para confirmar o encontro. A secretária atendeu-me com alguma melancolia na voz: “O doutor Gileno sofreu uma acidente ontem, está internado, e não sabemos por quanto tempo ficará afastado!”. O que fiquei sabendo depois é que ele havia batido com o carro em um poste e que o poste caiu sobre o carro, provocando um traumatismo craniano. O encontro estava cancelado.

Sem saber o que fazer ou dizer, despedi-me com votos de boa recuperação. Senti-me como se tivesse sido tragado por um vendaval repentino. Meu sonho parecia ter sido adiado para um futuro incerto. Minha única esperança com o mundo da música estava arruinada. Nunca fiquei sabendo ao certo se de fato o acidente ocorreu, mas o certo é que deixei um pouco o violão de lado e concentrei-me nos estudos. Não apenas por vontade própria, mas também porque a residência estudantil voltava à sua rotina de casa cheia e, por regras internas, havia horários delimitados para usar o violão e esses horários coincidiam com os dos estudos.

Às vezes, quando nos faltavam uns trocados para a cerveja, colocávamos aos finais de semana o violão debaixo dos braços e saíamos pelos botecos da Saúde. Não tardava e aparecia alguém perguntando se aquele violão saía ou não saía. Desconversávamos dizendo que já iríamos embora, pois tocar sem beber era dureza, e as respostas eram invariavelmente as mesmas: “Garçom, a conta dos meninos é minha … Vamos ver este violão!”. Na boca da noite, já estávamos nos especando no violão para não cair. E o mantenedor cada vez mais bêbado e mais exigente. A única coisa chata era quando enganchava numa música, e ficavam aquelas sucessivas repetições.

Nos domingos à noite, já estávamos de volta à rotina dos estudos para mais uma semana de caminhadas até o Colégio Central e de longas horas de estudo. A cada dia, eu me convencia que o estudo dependia só de mim e fui deixando a música para as horas de lazer, e estes eram cada dia mais raros. Quando chegou o final de ano, diferentemente do que fazia a maioria, fiquei na capital e não fui ver os meus pais no interior. O ano que se avizinhava seria o ano do meu vestibular e não poderia perder tempo com festas. Meu pai não gostou da minha decisão e queria ir me buscar, só não o fez por falta de recursos, mas mandou recados.

O ano novo que chegou foi triste para mim. Nós éramos em quatro irmãos estudando em Salvador. Em meados do segundo semestre recebemos uma carta do nosso pai informando que o dinheiro da casa havia acabado. Agora era cada um por si. O que cada um fez não cabe aqui para ser descrito. O certo é que, após garantir pelo menos a mensalidade da residência estudantil e isenção de inscrição do vestibular na federal, toquei em frente a vida e os estudos. Só uma coisa ainda me consumia: a opção de curso, pois todas me agradavam.

Depois de muita indecisão, fiquei com o curso de direito na Universidade Federal. E depois fomos às provas, pois eramos muitos na residência estudantil prestando vestibular. A publicação dos gabaritos das provas deu-me a tranquilidade de que havia tido um bom desempenho, mas a aprovação dependia de outras variáveis e era preciso aguardar a publicação dos resultados finais, mas todos já acreditavam na minha aprovação.

Numa tranquila sexta-feira de janeiro, à tarde, enquanto descansava no meu beliche, alguém entrou gritando no porão dizendo que a UFBa estava divulgando o resultado do vestibular. Naquela época, tínhamos acesso ao resultado em primeira mão pelo rádio. Todas as AMs e FMs da cidade publicavam os resultados, nome por nome. Alguém trouxe um rádio grande para a sala, e o colocou em volume máximo. O locutor começou a ler a relação, curso por curso, em ordem alfabética.

A cada novo curso divulgado, de um lado, aquela explosão de alegria dos aprovados e, de outro, a onda de tristeza dos reprovados. Até que a rádio anunciou: “Agora, Direito”. Do “A” ao “J” foi uma eternidade. Pareceu-me que todo mundo tem o primeiro nome antes do meu. Quando falou meu nome, foi aquela gritaria geral, aplausos, abraços, beijos etc. Na verdade, não estava acreditando, e, antes do trote (pelar a cabeça), exigi confirmação que de fato era eu. Pegamos outro rádio e mudamos a estação. E novamente a rádio pronunciou todo o meu nome, como se em câmara lenta, para me tirar a dúvida. E como nunca na vida, desejei um trote, e tomei o meu primeiro porre por um justo motivo. (José Diniz de Moraes, Natal/RN, 28/12/2014)