Paulo Cezar Lima, o Caju, além de integrante da Seleção de 1970, até hoje uma das preferidas de todas que participaram de Mundiais, tem a língua afiada como característica marcante. Declaradamente insatisfeito com o futebol do Brasil e com a realização da Copa no país, o ex-jogador faz uma leitura crítica sobre o esporte. Para ele, a Seleção de Felipão está longe de ser satisfatória e Ganso, "um artista do futebol", deveria ter sido convocado. Caju disse que não vai se vestir de verde e amarelo porque "sente falta do futebol bonito".
Você disse que não ia torcer para o Brasil na Copa. Ainda defende essa posição?
Vivemos em uma democracia, correto? Eu tenho o direito de escolher o futebol do meu gosto. Gosto do futebol bonito, bem tocado, com drible, o futebol-arte. O futebol que o Brasil joga já não é assim há muito tempo, hoje é um futebol amarrado, agressivo, chato. Vou torcer então para uma seleção que que jogue um futebol bonito, como a Holanda, a Argentina, Alemanha. A Espanha, também, um pouco.
O que achou dos convocados à Seleção de Felipão?
Não estou preocupado com o Brasil nem com a Seleção Brasileira. Francamente, estou me lixando. Acho que não vale a pena torcer nem assistir um time que que não tem um Alex, um Ganso, que são realmente craques brasileiros. Então não perco meu tempo com isso.
Você chegou a comentar que levaria Ganso para a Copa. Acha que ele vai fazer falta?
Falo isso sempre. Ele é um artista do futebol, vai fazer muita falta, sim. Estou cansado das mesmices, sinto falta do futebol-arte. E o Ganso é um dos poucos brasileiros que trazem isso para o jogo, mas não foi convocado. Tudo bem, ele teve lesões, teve problemas, mas quem não tem? Acho que faltou investimento nele, ele tem uma visão que nenhum outro meio-campo tem. Agora, imagine nesses gramados, que estão maravilhosos, esses caras dando chutão, marcando e fazendo falta. Eles não têm direito de jogar nesses campos, têm mais é que jogar na várzea.
O que te fez desencantar do futebol depois de 1982?
Foi a derrota do futebol bonito, foi um futebol que mexia com o torcedor do Brasil. Acompanhei a copa na Espanha, torci para o Brasil ganhar. Esse tipo de futebol-arte, futebol com posse de bola, embaixada, drible e craques com estratégia em campo era o que se praticava no Brasil, foi o que caracterizou o futebol no Brasil. Foi a última Seleção que jogou assim.
Quais seleções você acha que têm chance de ganhar?
Eu, particularmente, quero ver uma equipe que jogue bonito, não quero que vença o antijogo, o chutão, a falta de estratégia. Não vou torcer para nenhuma seleção específica e, realmente, não estou preocupado com a Copa. Então, prefiro não falar mais sobre isso.
Você já disse que Pep Guardiola, do Bayern de Munique, é o melhor técnico do mundo. O que outros treinadores, entre eles o Felipão, poderiam aprender com ele?
O Guardiola resgatou bem a maneira que jogávamos antes. Ele conseguiu restabelecer no futebol essa posse de bola, os toques rápidos, o entrosamento entre os jogadores, a tática em equipe. A troca de passe acabou, então foi ele que resgatou isso do futebol brasileiro, essa característica que era das Seleções Brasileiras e que deixou de ser a partir de 1982. Em campo a gente tem que tratar bem a bola e minar o adversário, não é para massacrar o jogador do outro time com agressividade e faltas. Acho que os europeus estão tentando resgatar esse futebol bem jogado, especialmente os times ingleses. Eles estão fazendo uma mescla de jogadores estrangeiros, melhoraram o nível dos campeonatos deles, estão investindo. A maioria das equipes está tentando mudar a maneira de jogar do futebol inglês, que era o da falta de técnica. Estão conseguindo.
A Seleção de 1970 é comentada como uma das melhores da história do futebol nacional, com você, Rivellino, Pelé, Tostão e Gérson. Qual, na sua opinião, foi a característica que fez com que a Seleção de 1970 conquistasse o tri?
Acho que o Brasil teve duas Seleções excepcionais. Em 1958 a gente tinha Pelé, Bellini, Garrincha, Didi, Zito e Nílton Santos. Titulares e substitutos, eram todos excelentes. Em 1970, além do Pelé, que era o maior do mundo, a gente tinha um time sensacional, com Jairzinho, Tostão, Rivellino, Gérson, Clodoaldo, Piazza, Carlos Alberto Torres . Qualidade de jogadores excepcionais. A bola era prioridade do time, o passe rápido, a estratégia era uma coisa do time. Se tiver só corredores não tem como ganhar. Aí você me perguntou se era mais fácil 'focar' no jogo com um time como esse. Você não foca, você joga. Você foca a câmera. Não existe leitura de jogo. A gente tinha um entrosamento, uma intimidade. Apesar do Pelé ser, na época, o melhor do mundo, ninguém reivindicava nada, todo mundo jogava para o time, a gente só queria saber de jogar junto.
Além da Copa de 1970, você ainda participou das Seleções de 1974 e das eliminatórias do Mundial 1978. O que mudou em cada Copa?
Mudou tudo. Mudou o ambiente, os jogadores, e o ambiente é fundamental para o bom entrosamento do grupo. Depois, em 1978, eu tive um desentendimento com o governo militar e fui afastado da Copa mesmo tendo jogado as eliminatórias. Fui afastado porque jogo para o torcedor, não tenho medo de milico e falei o que achava, mesmo. Eles disseram que iam me tirar e me tiraram, fazer o quê?
Em uma coluna recente, você falou sobre esse episódio, de reivindicação por melhor remuneração, e falou que sua resposta foi ser tirado da Seleção. Você acha que o Bom Senso FC é um passo para que jogadores tenham acesso aos direitos pelos quais você brigou?
Naquela época era difícil brigar por qualquer coisa. Você tinha que ter coragem pra fazer uma reivindicação. Eu tinha saído do Olympique porque queria jogar na Seleção, participei das eliminatórias e pedi uma melhor remuneração ao presidente da Confederação Brasileira de Desportos (CBD). Ele negou, me cortou do time e tirou uma parte da minha vida. Sou uma pessoa solidária, não sou individualista, fiz aquilo não só por mim, mas pelos companheiros que passavam pela mesma situação. Acho que o Bom Senso tinha que ouvir quem jogou no passado. Eles estão agindo no futebol atual, deveriam buscar conversar com pessoas antigas para ter embasamento, saber o que aconteceu com esses atletas depois dos anos de futebol. Falar sobre outras coisas, também, tem muita gente de cabeça aberta, tipo Afonsinho, Wilson Piazza, Carlos Alberto Torres, Clodoaldo, o próprio Paulo Cezar Lima (risos), que pode ajudar. Eu espero que não morra no meio do caminho. Porque nossa classe normalmente é egoísta. Mas sozinhos não vão a lugar nenhum.
Você diria que sua passagem pelo Olympique de Marseille, na França, mudou seu jeito de lidar com o futebol?
Não, não. O futebol europeu ainda não tinha a grandeza que tem hoje. Eu fui o primeiro dos anos 1970 a ir jogar na França, no Olympique de Marseille. Fui para eles um grande jogador, e essa é uma época da minha vida que lembro com muita saudade. Sinto falta são só dos momentos dentro de campo, mas porque Marseille é parecida com o Rio. Era uma mistura de gente, de raças, tinha a cultura da praia, que eu adoro. Aperfeiçoei minha técnica, mas a principal mudança foi de ritmo, porque os europeus são extremamente chatos com horário e são muito educados, ou seja, duas coisas que não temos costume aqui no Brasil. Vou te ser bem sincero, se não fosse minha mulher, não moraria aqui no Brasil, não. Estaria na França, porque tenho história lá e porque falo francês fluentemente. Ou então em algum outro país europeu que desses valor aos jogadores da minha época.
Qual é a leitura que você faz do futebol jogado no Brasil hoje?
O futebol está agressivo, é palavão o tempo inteiro, falta atrás de falta em todas as partidas, seja pela série A, B ou C. Estamos passando por um momento de agressividade e falta de educação latentes, que são traduzidas para o torcedor. Pois veja, cobramos ingresso caro e oferecemos uma qualidade de futebol horrível. O torcedor só vê agressividade, antijogo, pontapé, palavrão. Daí o cara, que está na arquibancada, fica insatisfeito e responde com agressividade. Por isso temos tantas cenas de pancadaria, de brigas, como aquele infeliz que jogou um vaso sanitário da arquibancada para atingir outro torcedor. Ninguém mais quer ver isso (No jogo entre Santa Cruz e Paraná, realizado em Recife no início do mês, o torcedor do Paraná que foi atingido pelo objeto morreu com o impacto. O agressor está preso).
Você criticou a saída de Jayme de Almeida do Flamengo, na sua opinião motivada por cartolas, e deixou claro que se tratava de uma 'traição' ao ex-técnico. O que, na sua opinião, precisa acontecer para que decisões como essas parem de ser tomadas exclusivamente por esses empresários?
Achei que a saída do Jayme de Almeida foi uma vergonha, uma humilhação. Isso acontece desde os anos 1930, da época de meu pai, e, infelizmente, é uma prática comum que não vai mudar por si só, porque é lucrativa e atende a interesses específicos de quem ganha dinheiro com o futebol. E isso tem que ter um basta, um basta na corrupção do país, um basta na corrupção no esporte. A Confederação Brasileira de Futebol (CBF) não pode, sozinha, comandar o futebol no país, e isso é visível em todos os clubes. E quem paga por isso, além do jogador, é o torcedor.
Você acha que modelos de administração em que o torcedor participa das decisões dos clubes é uma saída para combater esses abusos?
Eu acho que para se eleger os presidentes das confederações e federações teriam que consultar o povo, o torcedor. Acho que umas das medidas na administração ideal teria que ser essa, o voto popular para todos os órgãos regulamentadores do esporte: o comitê olímpico, a CBF, os clubes, de todas as confederações do esporte. Porque senão não vai mudar nada.
Você recentemente rebateu a declaração do Pelé sobre racismo e as mortes nas construções dos estádios para a Copa. Na sua opinião, de que forma as pessoas ligadas ao esporte devem encarar esses episódios?
Não quero mais falar sobre isso, já falei tudo que eu tinha que falar, deixei minha posição bem clara. Agora deixe a consciência dos negros brasileiros trabalhar, eles que têm que opinar.
A Copa está trazendo várias incertezas e dúvidas, como a dos gastos públicos com estádios e estruturas e os prazos de entrega continuamente adiados. Como você enxerga isso?
Se você não melhorar a saúde do país, a educação, o salário mínimo, se a gente não investir nisso, em cultura, não adianta trazer evento nenhum pra cá que não vai melhorar nada. Eu nasci em favela, morei no barraco, meus pais ganhavam um salário de merda, sabia? A gente não passava fome, mas vivia bem apertado. Foi só quando eu comecei a trabalhar, com 17 anos, como jogador, que minha mãe parou de trabalhar e graças a Deus nunca mais precisou. Nada realmente melhora pra esse povo, pro pobre, o que temos são esmolas. Se você investe bilhões em estádios, como é que não tem verba para aumentar salários da classe média e pobre? Profissionais que prestam serviços básicos, como médicos, professores. Normalmente a carreira dos jogadores de futebol dura no máximo 20 anos, 18 anos. Durante esse tempo ele sempre contribui para o INSS. Veio agora essa 'premiação' do Lula, há alguns anos, para que os jogadores tenham essa aposentadoria. Hoje ela está embargada. A previdência pediu nosso imposto de renda, a gente contribuiu com imposto durante anos, e agora nossa aposentadoria está presa. É essa a realidade do jogador, depois de jogar você tem que viver, correr atrás. Eu presto serviço, dou palestras, escrevo. Mas quando tem aumento de aposentadoria de ex-ministros, presidentes, senadores, bolsa disso, bolsa daquilo, ninguém fala porra nenhuma. É um absurdo o que estão fazendo com a gente. Todo mundo contribuiu. É um direito que foi concedido, prometido, e não foi liberado.
Você comentou que os preços dos ingressos dos jogos são abusivos, além dos preços de serviços em bares e restaurantes, em especial no Rio de Janeiro. O que acha do movimento Rio $urreal, que tem como objetivo expor e combater os valores 'salgados'?
Moro em São Paulo mas acompanho esse movimento. Acho inclusive que tem tudo a ver comigo, que sou contestador, nascido em barraco. Acho uma sacanagem esses preços exorbitantes especialmente para quem ganha salário mínimo, essa miséria de 700 e poucos reais que não dá pra nada. E quem tem filhos, faz o quê? Não dá pra pagar aluguel, IPTU, conta… Então, como é que um cara desses vai poder investir em lazer? A praia, que era um programa em conta, já não está mais. Não temos mais opções de lazer.
Juliana Lisboa – Portal A Tarde
