Levantamento sobre compromissos de campanha, convênios sem execução e grandes obras sem prazo de conclusão, alimentam incertezas nos bastidores políticos e aumentam o temor de desgaste das gestões municipais

A pouco mais de dois meses das eleições de 4 de outubro, cresce nos bastidores da política baiana, especialmente na região sudoeste, um clima de preocupação entre prefeitos, lideranças políticas e gestores municipais que apostam na reeleição do governador Jerônimo Rodrigues. O motivo vai além da disputa eleitoral. A inquietação está diretamente ligada ao ritmo de execução das principais promessas do governo estadual, a situação de centenas de convênios assinados, obras iniciadas sem previsão de conclusão e compromissos que permanecem apenas no papel, criando um ambiente de insegurança para administrações municipais que fizeram dessas intervenções uma das principais vitrines de seus mandatos.

O cenário ganhou ainda mais repercussão após o levantamento do projeto Promessas dos Políticos, do Portal G1, que aponta que, após três anos e meio de governo, Jerônimo Rodrigues cumpriu integralmente apenas 33 das 92 promessas apresentadas durante a campanha de 2022. Outras 37 foram classificadas como parcialmente cumpridas e 22 ainda não foram executadas, demonstrando que apenas cerca de um terço dos compromissos foi totalmente entregue até o momento.

GRÁFICO ILUSTRATIVO – SEGUNDO DADOS DO PORTAL G1

Entre os compromissos que permanecem pendentes ou parcialmente executados estão obras estratégicas de infraestrutura, barragens aguardadas por municípios do interior, hospitais regionais, projetos voltados ao desenvolvimento econômico, ampliação da cobertura de telefonia em localidades rurais, sistemas de segurança pública e outras iniciativas consideradas fundamentais para diversas regiões da Bahia.

Nos municípios do interior, principalmente os de pequeno porte, a preocupação é ainda maior porque muitos prefeitos anunciaram à população grandes investimentos viabilizados por meio de convênios estaduais, celebraram autorizações, realizaram solenidades de assinatura e apresentaram essas obras como conquistas históricas de suas administrações. Entretanto, boa parte desses empreendimentos ainda não saiu do papel ou se encontra em estágio inicial, enquanto outros receberam apenas as primeiras parcelas dos recursos necessários para sua execução.

Nos bastidores, interlocutores próximos de gestores municipais relatam que cresce diariamente a tensão em relação ao futuro dessas obras. A avaliação é que muitas delas dificilmente serão concluídas antes do período eleitoral, restando aos prefeitos o desafio de explicar à população por que equipamentos anunciados como prioridades continuam inacabados ou sequer tiveram avanço significativo.

O temor também envolve um eventual cenário pós-eleitoral. Entre analistas políticos e agentes públicos circula a avaliação de que, mesmo em caso de reeleição do governador, a próxima gestão poderá enfrentar um período de reorganização administrativa e financeira, o que poderia retardar novos desembolsos para convênios, contratos e obras em andamento. Trata-se de uma projeção feita por alguns observadores políticos, e não de um fato confirmado. Caso isso ocorra, municípios que dependem de recursos estaduais para concluir grandes intervenções poderão enfrentar atrasos adicionais, com impactos sobre cronogramas e serviços públicos.

A situação desperta preocupação principalmente entre prefeitos que apostaram politicamente na parceria com o Governo da Bahia e concentraram parte de seus projetos estruturantes em investimentos estaduais. Para muitos deles, essas obras representam a principal marca de suas administrações e, consequentemente, um dos principais argumentos para fortalecer seus grupos políticos nas eleições deste ano.

Outro fator que amplia as incertezas, envolve obras executadas por consórcios intermunicipais, alguns deles, alvo de questionamentos e investigações por órgãos de fiscalização. Em diversas regiões, empreendimentos administrados por esses consórcios apresentam ritmo lento, dificuldades operacionais e cronogramas bastante comprometidos, aumentando o receio de que os benefícios prometidos à população demorem ainda mais para se concretizar.

Há também municípios que aguardam investimentos vinculados ao Governo Federal e convivem com situação semelhante, já que algumas intervenções permanecem em fase burocrática ou sequer iniciaram sua execução, apesar dos anúncios realizados anteriormente.

Diante desse cenário, prefeitos da região começam a adotar uma postura mais cautelosa perante a população. Em diversas cidades, gestores têm procurado deixar claro quais obras são executadas com recursos próprios do município e quais dependem exclusivamente de repasses estaduais ou federais. O objetivo é diferenciar as responsabilidades administrativas e evitar que eventuais atrasos em convênios externos sejam interpretados como falhas da gestão municipal.

Com o avanço da campanha eleitoral, especialistas avaliam que o andamento das obras públicas poderá assumir papel relevante no debate político em diversas regiões da Bahia. Para prefeitos que construíram parte de seus projetos administrativos em parceria com o Governo do Estado, a conclusão ou não dessas intervenções poderá influenciar diretamente a percepção dos eleitores sobre a capacidade de entrega das administrações locais, transformando promessas ainda pendentes em um dos temas mais sensíveis da reta final da disputa eleitoral.