A dinâmica dos votos cruzados revela por que resultados estaduais e nacionais não devem ser confundidos com capital eleitoral nas disputas municipais.

A vitória nas urnas não autoriza ninguém a reivindicar, sozinho, a força de um movimento político que ultrapassa as fronteiras municipais. Embaladas pelos resultados das eleições para governador e presidente, lideranças que enfrentam desgaste em suas bases tentam converter o desempenho de Lula e Jerônimo Rodrigues em demonstração de prestígio pessoal. Em Macaúbas, por exemplo, os números apresentados para a votação dos deputados sustentam uma leitura diferente daquela que o ex-prefeito Amélio Costa e seu grupo procuram estabelecer.

Depois da vitória do PT em 413 dos 417 municípios baianos, conforme os dados reunidos para esta análise, e da contribuição decisiva da Bahia para o resultado de Lula, especialmente no segundo turno, reaparece um roteiro conhecido no período posterior às eleições. Políticos que já não demonstram a mesma capacidade de mobilização de outros tempos procuram atribuir à própria influência os resultados obtidos pelos candidatos que apoiaram. A eleição de Jerônimo no primeiro turno e a vitória de virada de Lula no segundo, porém, não podem ser explicadas exclusivamente pela atuação de uma liderança municipal.

Macaúbas, município acompanhado por pesquisas do Jornal O Eco, oferece elementos concretos para esse debate. Desde que deixou a prefeitura após uma derrota eleitoral, Amelinho mantém vínculos com a estrutura do governo estadual, por meio do exercício de cargos e da indicação de aliados para funções públicas. Essa presença, contudo, não tem impedido a perda de força eleitoral evidenciada na votação, por exemplo,  de um de seus principais parceiros políticos, o deputado federal Sérgio Brito.

Segundo relatos de moradores e lideranças locais recebidos pelo jornal, o ex-prefeito e seu grupo estariam tentando assumir o protagonismo pelos resultados de Jerônimo e Lula no município. Trata-se de uma interpretação que desconsidera o peso eleitoral próprio de Lula, a preferência pelo PT consolidada em parte expressiva do eleitorado baiano e outros fatores que interferem nas escolhas para os governos estadual e federal. Também ignora que o grupo do prefeito Aloísio demonstrou capacidade de mobilização na disputa proporcional, obtendo, entre os candidatos relacionados nesta comparação, votação superior à dos nomes apoiados pelo ex-gestor.

Mesmo em um município que deu a vitória aos candidatos petistas, o prefeito preservou sua força local e, em 2026, seu grupo reuniu a maior votação no comparativo dos deputados apoiados pelas duas principais forças aqui analisadas. Essa combinação de resultados demonstra que o eleitor de Macaúbas distingue as disputas. A preferência por Lula e Jerônimo não significou adesão automática ao grupo de Amelinho, assim como o posicionamento contrário de Aloísio, não impediu que seus candidatos a deputado alcançassem votação superior. Confundir essas escolhas é tentar transformar uma vitória estadual e nacional em um reconhecimento municipal que precisa ser demonstrado por outros indicadores.

Não se trata de desconhecer a participação de Amelinho na campanha. O ex-prefeito se mobilizou, trabalhou e contribuiu para as candidaturas de Jerônimo e Lula. Reconhecer essa contribuição, entretanto, não significa atribuir a ele a responsabilidade exclusiva pelas vitórias. A avaliação positiva ao trabalho da atual gestão municipal, que inclusive vem sendo detectado pelas pesquisas de avaliação de governo, foi confirmada  nesta análise dos resultados das urnas em 2026, encontrando na votação de seus deputados um indicador de sustentação política,  termômetro que indica o discernimento do eleitorado local, que reconheceu o trabalho do prefeito e deu aos seus deputados votação muito superior.

No sertão, a capacidade de uma liderança reunir votos para deputados estaduais e federais é tradicionalmente observada como um dos indicativos  de sua influência atual. Esse desempenho ajuda a dimensionar a organização dos grupos, a presença das bases e a capacidade de mobilização para as disputas municipais. Não determina automaticamente o resultado de uma eleição para prefeito ou vereador, mas oferece referências que não podem ser ignoradas quando alguém reivindica a condição de grande responsável por uma vitória, que nem de longe foi mérito unicamente seu.

Na eleição de 4 de outubro de 2026, segundo os números verificados pela redação, Sérgio Brito, deputado federal apoiado há décadas por Amelinho, recebeu 4.432 votos em Macaúbas. Foi o menor resultado entre os três pleitos relacionados no levantamento dessa parceria. Do outro lado, Roberta Roma obteve 5.329 votos e Manuel Rocha, 1.158. A soma dos dois candidatos à Câmara Federal apoiados pelo grupo do prefeito Aloísio alcançou 6.487 votos, uma diferença de 2.055 em relação à votação de Sérgio Brito.

Se analisado o pleito de 2022, percebe-se outro elemento. Roberta Roma que obteve à época 4.043 votos, subiu em 2026 para 5.329 votos, crescimento de 1.286 votos, enquanto Sérgio Brito caiu de 7.285 para 4.432. São movimentos distintos dentro do mesmo município, que reforçam a necessidade de examinar o desempenho de cada candidatura e de suas respectivas bases antes de atribuir o resultado geral a uma única liderança.

Na disputa para deputado estadual, a diferença também favoreceu o conjunto de candidatos apoiados pela atual administração. Marcinho Oliveira, Igor Dominguez e Pedro Tavares somaram 6.252 votos nesse ano de 2026, conforme os dados pesquisados. Carlinhos Sobral, apoiado por Amelinho e seu grupo, recebeu 4.016. A vantagem do conjunto ligado ao prefeito foi de 2.236 votos. Entre os resultados individualizados nas urnas, Marcinho passou de 2.618 votos, em 2022, para 4.146, em 2026.

A trajetória de Sérgio Brito é ainda mais expressiva quando observada ao longo das últimas três eleições. Sempre com o apoio de Amelinho, o parlamentar recebeu 8.657 votos em Macaúbas em 2018, caiu para 7.285 em 2022 e chegou a 4.432 em 2026. A redução foi de 4.225 votos em oito anos, equivalente a aproximadamente 48,8% da votação inicial. Apenas entre 2022 e 2026, a perda foi de 2.853 votos.

É nesse contexto que deve ser examinada a tentativa de apresentar o resultado de Jerônimo e Lula como prova de uma recuperação do prestígio pessoal do ex-prefeito no cenário político local. A observação das bases municipais na Bacia do Paramirim exige distinguir o apoio a projetos estaduais e nacionais da capacidade efetiva de cada grupo disputar o poder local. Em Macaúbas, o histórico de eleição e reeleição de Aloísio, mantendo seu posicionamento político, e a votação de seus deputados em 2026 evidenciam essa distinção. Portanto, contra fatos não há argumentos e narrativas nãos se sustentam sem fundamentos auditáveis.