Uma intervenção artística em um imóvel colonial na região central de Itacaré, município localizado no Litoral Sul da Bahia, transformou-se no centro de uma controvérsia envolvendo visitantes estrangeiros, moradores e ativistas locais. A ação, realizada no dia 30 de outubro, contou com grafites e inscrições relacionadas às tensões geopolíticas no Oriente Médio, culminando em discussões acaloradas entre turistas israelenses e manifestantes pró-Palestina.

O caso provocou manifestações oficiais por parte da prefeitura municipal, da Confederação Israelita do Brasil (Conib) e dos proprietários do imóvel, reacendendo debates sobre a convivência de visitantes estrangeiros e o uso de espaços urbanos para manifestações políticas na região costeira baiana.

A intervenção artística na fachada do casarão em Itacaré

A iniciativa foi organizada pela Frente Palestina Sul da Bahia. Segundo a professora e ativista Mariá Veiga, uma das organizadoras do ato, a proposta inicial previa a pintura de uma melancia, fruta que se tornou um símbolo visual internacional da causa palestina. Contudo, ao longo da manifestação, outros participantes adicionaram frases e ilustrações complementares à fachada do casarão histórico.

Entre os slogans gravados nas paredes estava a expressão “Do Rio ao Mar”. A frase carrega interpretações divergentes no debate público internacional. Enquanto grupos ativistas pró-Palestina sustentam que a mensagem representa a reivindicação de direitos fundamentais e liberdade para a população palestina, representantes de entidades judaicas e apoiadores do Estado de Israel afirmam que o termo faz referência ao fim da existência estatal israelense.

Remoção de cartazes, vaias na praça e impasse com proprietário

Horas após a conclusão dos desenhos, a atmosfera no local ficou tensa. Conforme relatos da organização, turistas de nacionalidade israelense tentaram retirar o material aplicado sobre as paredes da estrutura. Durante a madrugada subsequente, parte dos cartazes fixados no casarão foi removida do local.

Registros em vídeo divulgados em redes sociais registraram o momento em que um grupo de israelenses foi questionado por pessoas presentes na praça central de Itacaré. Diante do desentendimento e das vaias do público presente, os visitantes deixaram a área. De acordo com informações apuradas pelo jornal O Globo, a Polícia Civil declarou que não foi acionada formalmente para intervir no episódio.

A extensão da arte urbana também gerou insatisfação por parte do dono do imóvel. O proprietário contestou o resultado final da intervenção, alegando que o volume de elementos grafados e as mensagens aplicadas ultrapassaram o que havia sido previamente acordado com os organizadores. Diante do impasse, ele solicitou a repintura completa da fachada para encobrir todo o conteúdo pintado.

Posicionamento das entidades e da administração municipal

O incidente gerou reação institucional da Confederação Israelita do Brasil (Conib). Em nota oficial, a entidade manifestou repúdio a atos de vandalismo contra imóveis e a episódios caracterizados como intimidação ou hostilidade direcionados a turistas e membros da comunidade judaica. A Conib ressaltou ainda que a defesa dos direitos do povo palestino não deve ser tratada como algo incompatível com o respeito à integridade da comunidade israelense.

Por sua vez, a Prefeitura Municipal de Itacaré esclareceu que não teve participação no acordo estabelecido entre o proprietário privado e os realizadores da pintura. O poder público local declarou que eventuais desacordos entre entes privados devem ser dirimidos pelas partes envolvidas.

Em seu comunicado oficial, a gestão municipal também repudiou qualquer conduta voltada à violência, discriminação ou intolerância religiosa e cultural. A administração ressaltou que não cabe ao município emitir opiniões de caráter institucional a respeito do conflito geopolítico entre Israel e Palestina.

Histórico de tensões e turismo internacional na Bahia

Este não representa o primeiro episódio de atrito envolvendo turistas de origem israelense na região. Em março do mesmo ano, uma confusão registrada nas ruas da cidade resultou na prisão de três pessoas. Naquela ocasião, o tumulto teve início após uma moradora de 40 anos denunciar ter sido agredida por visitantes estrangeiros enquanto registrava com a câmera de seu celular uma discussão em via pública, o que desencadeou protestos populares por respeito à comunidade local.

A expressiva presença de jovens viajantes israelenses no litoral sul da Bahia possui raízes culturais e midiáticas. A partir de 2013, com o sucesso da série de televisão israelense Malabi Express — gravada na localidade de Morro de São Paulo, no município de Cairu —, o destino baiano ingressou na rota de viagens tradicionais realizadas por jovens daquele país ao concluírem o serviço militar obrigatório.

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